setembro 17, 2014

há um ano perdeu-se uma boyband decente (sos e fly with me estão no meu coração), mas agora ganhou-se uma canção estupenda que segue de perto as pisadas de miguel, o que só pode ser coisa boa. há uns três anos o irmão joe também tinha umas belas canções no seu disco a solo que, infelizmente, foi votado ao esquecimento, como parece que acontecerá com a carreira a solo do nick. shame.

setembro 14, 2014
"Não sejamos ingénuos: não há negócios que não sejam ilícitos. Negócio é uma palavra que, por si mesma, quer dizer perder algo para se ganhar algo mais. E o que se perde nunca é bom. Não há homens de negócios bons. Há homens de negócios, mais ou menos violentos, mais ou menos ilícitos.
O mundo não é um lugar lícito."

— paulo josé miranda in ‘a máquina do mundo’.

setembro 11, 2014
Kate Bush - Before the Dawn
Passou uma semana desde que vi Kate Bush e o espectáculo Before the Dawn e, para ser profundamente honesto, ainda não estou em mim ou acredito sequer que tal tenha sido possível. Quando ao fim de umas três horas de concerto a Kate (ouso dirigir-me com esta informalidade porque ela faz parte da minha vida diária) começa a cantar os versos “I just know that something good is going to happen/ And I don’t know when/ But just saying it could even make it happen”, da belíssima Cloudbusting (que eu me atrevi a referir há quinze dias, numa entrevista na Antena 1, que era a minha preferida, ainda que essa escolha seja uma tarefa impossível de concretizar), não contive a choradeira. Não só por ter à minha frente uma mulher como Kate Bush ou por sentir, naquele preciso momento, que fazia parte de uma qualquer comunidade abstracta que se unia de forma tão feliz e efusiva, mas principalmente porque aqueles versos se inscreviam com precisão nas minhas ansiedades para lhes dar uma reviravolta.
Dado o meu trabalho quotidiano habituei-me a ver concertos com tanta regularidade que, nos últimos anos, a excitação de outrora deu lugar ao tédio por ver ininterruptamente as mesmas fórmulas, os mesmos rituais de espectáculo, seja em cima do palco, seja entre o público. E se, por um lado, um regresso aos palcos de Kate Bush, 35 anos depois da sua primeira e única digressão, significaria sempre uma fuga a essa conduta normativa, nunca na vida eu sonhava que o espectáculo que ela preparou fosse aquilo que acabei por ver.
Before the Dawn não é um concerto pop/rock. Também não é uma peça de teatro ou uma ópera, ainda que se aproprie com grande liberdade de todas estas linguagens. Before the Dawn é uma forma de aceder, a partir de dentro, à personalidade tão complexa e intricada da Kate Bush-artista, trágica, obscura e fantasiosa na sua incandescência ao mesmo tempo que consegue ser profundamente cândida e maternal, construindo-se como uma personagem teatral mas mantendo uma ressonância emotiva que a mantém profundamente terrena e minha (sim, minha).
Pode-se dizer que o início do espectáculo é mais convencional, recuperando canções como Lily (do álbum The Red Shoes, 1993), Hounds of Love e Running Up that Hill (A Deal With God) (Hounds of Love, 1985) ou King of the Mountain (Aerial, 2005), esta última apresentada numa nova versão que consegue suplantar a original. Fiquei desde logo surpreendido pela prestação vocal da Kate, tão precisa e emotiva, sendo impossível que tenha ficado muito tempo sem cantar com regularidade e depois apareça do nada e se mantenha uma intérprete tão infalível. Aposto que andou a dar concertos lá na mansão junto ao mar e não nos disse nada.
Mas a maior surpresa veio depois, quando transpôs para palco a Ninth Wave, suite que compõe o lado B de Hounds of Love, série de canções sobre uma mulher que se vê isolada no mar gélido. Antes foram atirados sobre o público centenas de bilhetes amarelos com os versos “Wave after wave, each mightier than the last,/ Till last, a ninth one, gathering half the deep/ And full of voices, slowly rose and plunged/ Roaring, and all the wave was in a flame”, de um poema de Alfred Tenyson, que já tinham sido incluídos no seu quinto álbum. Esta é, claramente, a secção mais complexa e ambiciosa de Before the Dawn, construída como um espectáculo teatral, mas com uma componente cinematográfica muito marcada. Vemo-la perdida nas águas, o seu corpo a assombrar o filho (interpretado pelo próprio filho, Bertie, que integra o coro e o grupo de atores), a sua tentativa de salvamento/salvação até que cai nos braços dos cadáveres de peixes, que a levam para nenhures, transportando estes o seu corpo entre o público, até que, no final, se vê a sua mão no ar para logo desaparecer, ficando na dúvida se esta mulher foi ou não salva. A felicidade de The Morning Fog, que conclui a Ninth Wave, faz antever um final feliz, ainda que o desfecho também possa ter lugar num outro patamar metafísico, distante do mundo terreno.
Depois do intervalo, Kate Bush voltou para interpretar uma outra peça conceptual, A Sky of Honey, presente na segunda parte da obra-prima que é Aerial, com a qual regressou aos discos depois de doze anos afastada. A suite centra-se num relato das diferentes etapas do dia, desde o alvorecer da manhã até anoitecer, concluindo com a nova manhã, ao mesmo tempo que um pintor (interpretado novamente por Bertie, que nesta parte chegou a cantar sozinho uma nova canção, Tawny Moon) tenta registar na tela esta evolução. Esta é uma secção onde Kate mostra uma relação telúrica com a natureza, com o canto dos pássaros que tenta replicar (na belíssima Aerial Tal), e isto acontece de forma tão intrínseca que ela própria, na recta final, transforma-se, em parte, numa ave canora. A relação com a natureza exerce uma tremenda influência na sua abordagem às canções, onde habitam silêncios, texturas contemplativas, mas também uma força espontânea só possível de se manifestar nesse lugar primário, daí que se sinta também a maternidade como elemento fulcral desta parte do espectáculo, dada a forma como interage com o boneco de madeira (que, imagino eu, seja a forma de transpor para palco Bertie enquanto criança) que a acompanha durante toda esta fase, trazendo assim referências da arte do mimo, que habitam a obra visual de Bush desde o início.
O fim chega com Among Angels (50 Words for Snow, 2011), interpretada com a cantora ao piano, sozinha em palco, num momento de grande exposição íntima, encontrando-se a beleza precisamente nessa vulnerabilidade, e a já referida Cloudbusting, já com grupo, coro e atores ao seu lado.
Acabo de escrever este texto e tudo isto ainda me parece surreal. Um daqueles sonhos que só a Kate Bush proporcionava nas suas canções. Só ela o poderia materializar.

Kate Bush - Before the Dawn

Passou uma semana desde que vi Kate Bush e o espectáculo Before the Dawn e, para ser profundamente honesto, ainda não estou em mim ou acredito sequer que tal tenha sido possível. Quando ao fim de umas três horas de concerto a Kate (ouso dirigir-me com esta informalidade porque ela faz parte da minha vida diária) começa a cantar os versos “I just know that something good is going to happen/ And I don’t know when/ But just saying it could even make it happen”, da belíssima Cloudbusting (que eu me atrevi a referir há quinze dias, numa entrevista na Antena 1, que era a minha preferida, ainda que essa escolha seja uma tarefa impossível de concretizar), não contive a choradeira. Não só por ter à minha frente uma mulher como Kate Bush ou por sentir, naquele preciso momento, que fazia parte de uma qualquer comunidade abstracta que se unia de forma tão feliz e efusiva, mas principalmente porque aqueles versos se inscreviam com precisão nas minhas ansiedades para lhes dar uma reviravolta.

Dado o meu trabalho quotidiano habituei-me a ver concertos com tanta regularidade que, nos últimos anos, a excitação de outrora deu lugar ao tédio por ver ininterruptamente as mesmas fórmulas, os mesmos rituais de espectáculo, seja em cima do palco, seja entre o público. E se, por um lado, um regresso aos palcos de Kate Bush, 35 anos depois da sua primeira e única digressão, significaria sempre uma fuga a essa conduta normativa, nunca na vida eu sonhava que o espectáculo que ela preparou fosse aquilo que acabei por ver.

Before the Dawn não é um concerto pop/rock. Também não é uma peça de teatro ou uma ópera, ainda que se aproprie com grande liberdade de todas estas linguagens. Before the Dawn é uma forma de aceder, a partir de dentro, à personalidade tão complexa e intricada da Kate Bush-artista, trágica, obscura e fantasiosa na sua incandescência ao mesmo tempo que consegue ser profundamente cândida e maternal, construindo-se como uma personagem teatral mas mantendo uma ressonância emotiva que a mantém profundamente terrena e minha (sim, minha).

Pode-se dizer que o início do espectáculo é mais convencional, recuperando canções como Lily (do álbum The Red Shoes, 1993), Hounds of Love e Running Up that Hill (A Deal With God) (Hounds of Love, 1985) ou King of the Mountain (Aerial, 2005), esta última apresentada numa nova versão que consegue suplantar a original. Fiquei desde logo surpreendido pela prestação vocal da Kate, tão precisa e emotiva, sendo impossível que tenha ficado muito tempo sem cantar com regularidade e depois apareça do nada e se mantenha uma intérprete tão infalível. Aposto que andou a dar concertos lá na mansão junto ao mar e não nos disse nada.

Mas a maior surpresa veio depois, quando transpôs para palco a Ninth Wave, suite que compõe o lado B de Hounds of Love, série de canções sobre uma mulher que se vê isolada no mar gélido. Antes foram atirados sobre o público centenas de bilhetes amarelos com os versos “Wave after wave, each mightier than the last,/ Till last, a ninth one, gathering half the deep/ And full of voices, slowly rose and plunged/ Roaring, and all the wave was in a flame”, de um poema de Alfred Tenyson, que já tinham sido incluídos no seu quinto álbum. Esta é, claramente, a secção mais complexa e ambiciosa de Before the Dawn, construída como um espectáculo teatral, mas com uma componente cinematográfica muito marcada. Vemo-la perdida nas águas, o seu corpo a assombrar o filho (interpretado pelo próprio filho, Bertie, que integra o coro e o grupo de atores), a sua tentativa de salvamento/salvação até que cai nos braços dos cadáveres de peixes, que a levam para nenhures, transportando estes o seu corpo entre o público, até que, no final, se vê a sua mão no ar para logo desaparecer, ficando na dúvida se esta mulher foi ou não salva. A felicidade de The Morning Fog, que conclui a Ninth Wave, faz antever um final feliz, ainda que o desfecho também possa ter lugar num outro patamar metafísico, distante do mundo terreno.

Depois do intervalo, Kate Bush voltou para interpretar uma outra peça conceptual, A Sky of Honey, presente na segunda parte da obra-prima que é Aerial, com a qual regressou aos discos depois de doze anos afastada. A suite centra-se num relato das diferentes etapas do dia, desde o alvorecer da manhã até anoitecer, concluindo com a nova manhã, ao mesmo tempo que um pintor (interpretado novamente por Bertie, que nesta parte chegou a cantar sozinho uma nova canção, Tawny Moon) tenta registar na tela esta evolução. Esta é uma secção onde Kate mostra uma relação telúrica com a natureza, com o canto dos pássaros que tenta replicar (na belíssima Aerial Tal), e isto acontece de forma tão intrínseca que ela própria, na recta final, transforma-se, em parte, numa ave canora. A relação com a natureza exerce uma tremenda influência na sua abordagem às canções, onde habitam silêncios, texturas contemplativas, mas também uma força espontânea só possível de se manifestar nesse lugar primário, daí que se sinta também a maternidade como elemento fulcral desta parte do espectáculo, dada a forma como interage com o boneco de madeira (que, imagino eu, seja a forma de transpor para palco Bertie enquanto criança) que a acompanha durante toda esta fase, trazendo assim referências da arte do mimo, que habitam a obra visual de Bush desde o início.

O fim chega com Among Angels (50 Words for Snow, 2011), interpretada com a cantora ao piano, sozinha em palco, num momento de grande exposição íntima, encontrando-se a beleza precisamente nessa vulnerabilidade, e a já referida Cloudbusting, já com grupo, coro e atores ao seu lado.

Acabo de escrever este texto e tudo isto ainda me parece surreal. Um daqueles sonhos que só a Kate Bush proporcionava nas suas canções. Só ela o poderia materializar.

setembro 10, 2014

one direction - fireproof

não me venham com merdas, os one direction estão longe de ser uma boyband convencional. não só pela forma como eles se relacionam uns com os outros, mas até pela própria evolução musical, que de disco para disco tem preterido um som dito adulto (ou pelo menos assente em guitarras) em vez da pop eletrónica que, habitualmente, caracteriza estes grupos. talvez por isso os miúdos já tenham deixado uma descendência (5 seconds of summer) que passa mais por ir beber à pop/punk de uns blink 182 e green day do que às coreografias ensaiadas ao milímetro dos backstreet boys ou ‘n sync. 

isto tudo para falar da nova canção dos one direction, fireproof. se alguém estiver a ler esta imbecilidade de texto saberá que sou um fã acérrimo dos fleetwood mac. e são eles a grande influência que marca esta pérola de canção. a subtileza das harmonias vocais, dos coros que constantemente cercam as vozes de cada um dos miúdos com uma leveza que só me faz pensar na brisa do mar, servindo esta sombra vocal como uma manta que suporta uma guitarra em permanente solo, nunca impositiva mas bastante easy-going, conjugada com a bateria a marcar o ritmo midtempo, tudo isto só me traz à memória as canções mais solares dos fleetwood mac do período 1975-82 (ouvir entre 1:30-1:50 ou os últimos quarenta segundos para tirar as teimas).

sei bem que cada um ouve o que quer no que ouve, mas sinto que não estou a enlouquecer quando oiço em fireproof uma herança da riqueza melódica de lindsey buckingham/stevie nicks/christine mcvie/mick fleetwood/john mcvie. e, por isso, parece-me que os one direction estão, uma vez mais, a desmontar estereótipos relacionados com as boybands. 

ah e o niall está tão confortável neste registo que nunca soou tão doce (00:26-00:42). só espero - #fingerscrossed - que isto seja prenúncio para o disco que aí vem, four, a sair em novembro. até lá ainda haverá o filme-concerto para dar cabo da minha sanidade emocional.

agosto 4, 2014
"toda a gente é esquisita, menina, toda a gente é esquisita, só que alguns não se matam e outros conseguem sorrir"

— valério romão in o da joana

julho 30, 2014
"o povo que assistia
já sabia doutra vez:
Não dances onde não deves
senão comes onde não queres"

— b fachada. o verão está salvo. aqui.

julho 6, 2014
Quem é, afinal, Kate Bush?

image

Há 35 anos Kate Bush fazia uma série de concertos teatrais e altamente ambiciosos, a que deu o nome de The Tour of Life, para não mais voltar aos palcos, a não ser pontualmente. Na altura, um concerto da jovem britânica ultrapassava em muito a mera atuação de uma estrela pop, assumindo a cantora em palco as mais diversas personagens que já davam vida às suas canções. No final resistia sempre a mesma questão: quem é Kate Bush? Agora que se prepara para voltar aos palcos, para a série de concertos Before the Dawn, que vão realizar-se entre agosto e outubro no Eventim Appollo, em Londres, o mistério permanece.

Não existe uma única resposta para tamanha questão. A própria, quando tentava definir-se, caía no paradoxo: “Sou a megalomaníaca mais tímida que provavelmente irás conhecer na tua vida”, disse, em 1989, numa entrevista à revista britânica Q. As suas canções são como entrar numa sala de espelhos, onde o seu reflexo se multiplica e confunde com ele próprio. Se por um lado a sua música é evidentemente feminina e marcada pela sua sexualidade, por outro lado não foram raras as vezes que a própria Kate Bush se embrenhou totalmente no sexo oposto, num jogo de troca de papéis desafiante que só coloca mais questões quanto à definição desta cantora tão singular.

“Ela é certamente única entre as compositoras femininas que, no seu cânone, não contém uma única canção que rebaixe, castigue ou queira dar uma lição aos homens. Ela nunca foi uma feminista no sentido mais obtuso do termo - ela quer abraçar e preservar as diferenças entre os sexos e compreender o macho da espécie. Muitas das suas canções mostram mesmo um desejo em experienciar de forma completa o que é ser um homem; ela investe-os de poder, beleza e um tipo de atração mística que é incrivelmente generosa”, escreveu o autor Graeme Thompson na detalhada biografia Under the Ivy: The Life & Music of Kate Bush. Na verdade, a sua discografia está repleta de casos que vão ao encontro da tese do autor britânico, que revelam esse ímpeto da cantora em se investir de forma imersiva no corpo do homem. Fê-lo, em primeiro lugar, no papel, nas canções, mas também de forma literal, nos vídeos que davam imagens às suas histórias.

Em Cloudbusting, canção retirada do celebrado álbum Hounds of Love, de 1985, assume a pele de Peter, filho mais novo do psicólogo e filósofo Wilhelm Reich, papel que encarnou ela própria no respetivo teledisco, subvertendo assim os convencionais papéis de género. Esta foi uma prática corrente de todo o seu percurso. Never for Ever (1980), o seu terceiro álbum, lançado pouco depois de ter celebrado apenas 22 anos, é um exemplo paradigmático. “Liricamente as canções das sessões de Never for Ever eram menos notáveis pelo seu conteúdo político do que pela determinação contínua de Bush em rejeitar e subverter os papéis de género. Em sintonia com a sua própria ‘masculinidade’ enquanto artista, uma e outra vez ela cria reviravoltas que são mais comuns nas canções tradicionais, em que um grumete acaba por se tornar uma jovem vigorosa, já falecida há quatro meses”, lembra Graeme Thompson.

The Wedding List, tema retirado deste disco, levemente inspirado no filme A Noiva Estava de Luto (1968), de François Truffaut, renuncia a imagem da noiva inocente transformando-a numa assassina vingativa. Já em Babooshka, um dos seus grandes sucessos da época, inspirada esta numa canção tradicional de nome Sovay, Bush aproxima-se mais do marido infiel do que da mulher ciumenta.  O lado B deste single, Ran Tan Waltz, é outro caso paradigmático de subversão dos papéis tradicionais, contando a história de um jovem marido que é deixado sozinho em casa, com uma criança nos braços, enquanto a mulher se encontra na rua, entre copos e outros casos.

Por vezes essa vontade de “experienciar de forma completa o que é ser um homem” assume outros significados para além do mais literal. Running Up that Hill, de 1985, provavelmente o seu maior sucesso desde Wuthering Heights (1978), já reinterptretada por uma mão-cheia de artistas, que vai dos Placebo aos Chromatics, passando por Tori Amos, Patrick Wolf ou pelos Within Temptation, é, como descreve Graeme Thomson, “outra investida artística e completamente original nos papéis e relações de género”.

A canção, originalmente intitulada A Deal with God, fala do desejo, ainda que impossível, de Kate Bush em se tornar no seu amado e ele transformar-se nela. Esta troca de papéis acaba por assumir contornos mais abrangentes e que ajudam a compreender com maior profundidade esta carreira tão peculiar, porque ao se recusar em assumir determinismos de género, estimulando até que essas fronteiras de papéis se tornem cada vez mais nebulosas, Kate Bush está também a recusar definições estanques da sua personalidade criativa. Daí que o biógrafo descreva na introdução de Under the Ivy que Bush “sempre esteve muito mais próxima de um poeta ou romancista do que de um músico pop”.

Estas múltiplas personagens a que a cantora dez voz na sua carreira, aliadas a uma postura que encontrou na teatralidade uma forma de exposição individual não linear, mas também a uma reclusão que fez que nos últimos vinte anos tivesse lançado somente dois álbuns de estúdio (a obra-prima Aerial, de 2005, e 50 Words of Snow, de 2011) e um disco de reinterpretações do seu repertório (Director’s Cut, também de 2011), adensam o mistério que ainda é nos dias de hoje a figura de Kate Bush.

A partir de 26 de agosto - e até 1 de outubro - estará de novo em cima de um palco, com todos os olhares centrados em si, mas, a ter em conta a sua obra, serão certamente mais as questões que vai colocar do que respostas, sendo nesse desafio que reside muito do fascínio que a cantora carrega em si.

(texto originalmente publicado no Qi do DN)

12:47pm  |   URL: http://tmblr.co/Z_fmVt1KiHzcp
Arquivado em: kate bush 
julho 2, 2014

Pop & Insensibilidade Racial 

Provavelmente a maioria das pessoas que estarão neste momento a ler este artigo já estarão bem fartas do circo mediático que desde o ano passado se montou em torno de Miley Cyrus, cantora que trouxe agora à Meo Arena, em Lisboa, no dia 15 de junho, a digressão que tanta tinta tem feito correr. A maioria das críticas e comentários que se têm feito à ex-Hannah Montana desde a muito discutida actuação nos MTV Video Music Awards têm-se restringido à forma altamente sexualizada com que agora se expõe, ignorando muitas dessas vozes todo um outro caminho que vai de Madonna a uma Lady Gaga ou Beyoncé. Menos falada tem sido a problemática de Cyrus ter decidido sexualizar-se apropriando-se de estereótipos ligados às mulheres afro-americanas, recorrendo aos seus corpos como mais um adorno para validar uma imagem de rebeldia. Uma insensibilidade racial na qual está longe de ser a única “culpada”.

Aliás, alguns nomes sonantes no cenário pop recente, como Lilly Allen, Sky Ferreira, Lorde e Avril Lavigne, têm divulgado vídeos e canções bastante insensíveis em relação às problemáticas raciais e à forma como ainda hoje é o privilégio branco a apropriar-se de outras raças. Com isto não se quer acusar estas intérpretes de serem explicitamente racistas. Mas alguns dos seus actos pedem um questionamento porque, ao contrário do que os defensores da falácia do mundo pós-racial podem acreditar, existe racismo não intencional. 

Miley Cyrus, por exemplo, mostra uma vontade ávida de fazer parte (e de celebrar) essa cultura negra americana, falhando consecutivamente nas decisões. E com o alimentar de polémicas muitos se esquecem das belíssimas canções a que tem dado voz. Já Sky Ferreira, que se vai estrear em Portugal na edição deste ano do NOS Primavera Sound, e também ela uma das mais interessantes vozes da actualidade, divulgou recentemente o vídeo de “I Blame Myself”, no qual se faz acompanhar de um grupo de jovens negros como de um gang agressivo, recorrendo-se novamente a estereótipos sem ter em conta o seu contexto.

Por sua vez, a adolescente neozelandesa Lorde, que atuou pela pimeira vez em Portugal no Rock in Rio-Lisboa deste ano, deu-se a conhecer com uma canção, “Royals”, que tem preocupantes implicações raciais, dada as generalizações que faz do hip hop e, por consequência, da cultura afro-americana. “Every song’s like gold teeth, grey goose, trippin’ in the bathroom/ Blood stains, ball gowns, trashin’ the hotel room/ We don’t care, we’re driving Cadillacs in our dreams/ But everybody’s like Cristal, Maybach, diamonds on your time piece/ Jet planes, islands, tigers on gold leash/ We don’t care, we aren’t caught up in your love affair”, canta a jovem eleita pela Time como a adolescente mais influente de 2013. Curioso que, como apontou a feminista Verónica Bayetti Flores, Lorde preferiu focar-se na cultura hip hop para fazer as suas críticas contra a sociedade materialista, em vez de apontar o dedo aos verdadeiros responsáveis pela desigualdade na distribuição da riqueza.

Já a tentativa de criticar a sexualização da indústria pop por parte de Lilly Allen no vídeo de “Hard Out There” saiu completamente ao lado. No vídeo aparece com um grupo de dançarinas negras, seminuas, que dançam de forma lasciva para a câmara. Mas, ao contrário do que Allen provavelmente queria fazer, no final nunca é criticado o olhar e poder masculino que alimenta a objectificação das mulheres. A cantora acaba sim por ridicularizar o corpo das mulheres negras e a sua forma de dançar.

Mais recente ainda é o teledisco de “Hello Kitty” de Avril Lavigne, que utiliza como objectos quatro mulheres japonesas, homogéneas entre si e sem quaisquer expressões humanas, que acompanham a cantora por onde esta se passeia. O vídeo recorre a um imaginário infantilizado onde nem falta o habitual sushi, reduzindo a cultura japonesa a um fetiche estereotipado pelo mundo branco ocidental.

Todas as cantoras mencionadas se demitem das implicações raciais que os seus vídeos/canções comportam, mas estes exemplos, bem enraizados na pop mainstream, são reflexo que a sociedade pós-racial está muito longe de ser uma realidade. 

(este texto foi originalmente escrito para a revista DIF)

junho 30, 2014

balanço primeiro semestre 2014: s) - z)

seixlack - seu lugar é o cemitério
schoolboy q - oxymoron
sensible soccers - 8
sei miguel - salvation modes
toni braxton & babyface - love, marriage and divorce
torn hawk - through the force of will
willie nelson - band of brothers
yummy bingham - no artifical flavorz
young thug & bloodyjay - black portland
yg - my krazy life

junho 30, 2014

balanço primeiro semestre 2014: k) - r)

kelis - food
kevin gates - by any means
mariah carey - me. i am mariah… the elusive chanteuse
miranda lambert - platinum
neneh cherry - the blank project
ondness - vudu voguing (vols. I & II)
pessoas que eu conheço - uma carta de amor para a sega
prins thomas - III
rodrigo amado motion trio & peter evans - the freedom principle
rodrigo amado wire quartet - wire quartet

junho 30, 2014

balanço primeiro semestre 2014: a) - f)

5 seconds of summer - 5 seconds of summer
black bombaim - far out
davinche/katie pearl - 2002 r&g album
dolly parton - blue smoke
dead combo - a bunch of meninos
dj q - ineffable
excepter - familiar
filipe felizardo - volume II: sede e morte
future - honest

junho 26, 2014
"a última bilha de gás durou dois meses e três dias / com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado / mas eis que se foram os três dias e estou aqui"

— herberto helder

junho 24, 2014
- and what you do now that you are single?
- what you mean?
- sex.
- i don’t have it.
- aren’t you too young? 
- what you mean? is there an age?
- no idea.

- and what you do now that you are single?
- what you mean?
- sex.
- i don’t have it.
- aren’t you too young?
- what you mean? is there an age?
- no idea.

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